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A Bíblia, a greve e o fim do Brasil

Por Ricardo Gondim
Salomão, o terceiro rei do primeiro império de Israel, foi megalomaníaco e perdulário; em outras palavras, um empreendedor sem freios e um gastador sem limites. Para construir um mega templo com luxo e pompa, investiu tudo o que herdara do pai, Davi.
Insatisfeito com a opulência da obra, continuou a edificar palácios para a sua vasta corte. O texto bíblico menciona 700 princesas e um harém com 300 concubinas.
Revestir parede de ouro, tapetar corredores com tecidos finos, e bancar isso tudo com dinheiro de impostos não é tarefa fácil. E como se diz no Ceará: dinheiro não leva desaforo.
Ao morrer, Salomão havia exaurido todo o caixa imperial. O filho, Roboão, ascendeu ao trono em um clima conturbado. Um general da tropa, Jeroboão, também almejava sentar no trono de Davi. A disputa entre os dois foi tensa.
O rapaz começou a governar com outro problema: ele carecia de muito, muito, dinheiro para tocar o império. Em toda contabilidade, pública, familiar ou empresarial, não existe mágica. A coluna da arrecadação e a coluna das despesas devem se equilibrar. Quem gasta mais do que arrecada, mais cedo ou mais tarde, quebra. Nas contas públicas ainda existe o recurso da casa da moeda emitir dinheiro e pagar as contas, mas isso gera inflação.
O “custo Israel” era alto.
O que fazer? Roboão se aconselhou com jovens e com pessoas de mais idade. Os velhos disseram: “corte as despesas, reduza os custos, acabe com as mordomias”. A moçada nem pensou duas vezes (eles se refastelavam com as regalias do sistema): “Teu pai colocou sobre nós um jugo pesado de impostos pode cobrar ainda mais”. Roboão aceitou a sugestão dos rapazes. (ele também gostava de vinhos caros; suas mulheres eram consumistas; e as viagens, cheias de mimos).
Roboão aumentou os impostos e continuou com a vida mansa e gostosa. O resultado? Com o povo insatisfeito, o general, Jeroboão, se fortaleceu. Comandou uma revolta. Tentou um golpe de Estado. Houve guerra civil. E Israel rachou em dois reinos (para nunca mais se unir): Judá e Israel.
E dividido, a “herança de Abrão” só apanhou dos vizinhos. O final foi trágico e triste: tanto o Reino do Sul, Judá, como o do Norte, Israel, foram invadidos. Síria e Babilônia devastaram o que sobrou do que um dia representou um sonho de esplendor.
No Brasil, as regalias dos juízes com vários salários, auxílio moradia e assessores a perder de vista; a cultura do compadrio, que torna a justiça leniente com o rico e dura com o pobre; o legislativo que financia passagens aéreas semanais para deputados irem e virem a bel prazer; o empreguismo, que dá cabide para familiares não trabalharem, as aposentadorias astronômicas com vantagens sem fim para Executivo, Legislativo e Judiciário; os acordos de alocação de verbas para redutos eleitorais, nos inviabilizaram. Sem falar na corrupção endêmica, sistêmica, capilar.
O Brasil se tornou mais caro que o Israel de Salomão. Diante do impasse: aumentar impostos e diminuir custos, o governo Temer optou por diminuir os custos com saúde, educação e saneamento básico por vinte anos. Diante da pressão da burocracia emperrada, suja e lenta do Estado, o presidente escolheu aumentar impostos. Ele e toda a “corte” debocharam, escracharam e riram do povo.
O país não aguentou. Ninguém pode conceber que o povo continuaria a pagar, passivamente, uma das mais altas taxas de imposto do mundo e continuar a sorrir; principalmente, quando diariamente se noticia milhões guardados na Suíça e em Paraísos Fiscais.
Como podia o povo aceitar que o país descesse pelo esgoto, com uma pequena elite que só legisla, julga e gerencia para dar continuidade ao sistema iníquo e injusto? Resultado: a revolta aqueceu em fogo lento. Hoje o Brasil inteiro enfrenta um impasse igualzinho ao de Israel. Nenhum Estado sobrevive por muito tempo com gastança, roubo e má gestão. Greve não provoca o caos, o caos é que provoca a greve.
O colapso brasileiro não é culpa de um partido, mas resultado de uma cultura patrimonialista, egoísta, cínica. Velhos oligarcas degeneraram nossa frágil democracia em plutocracia (governo de ricos). Plutocratas a degeneraram em cleptocracia (governo de ladrões).
O Brasil entrou em um beco sem saída assim como o Israel do filho de Salomão. O pior cenário ainda está por acontecer. Talvez a única mensagem de esperança seja, precisamente, repetir que precisamos de uma catástrofe e, assim, ressurgirmos nação, com cidadania, justiça e paz.
Soli Deo Gloria